Onze anos após o trágico rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) divulgou novas evidências de que o ecossistema aquático da bacia do Rio Doce continua a sofrer com os efeitos do desastre. A pesquisa identificou anomalias em peixes, como deformações e tumores, resultantes da contaminação causada por rejeitos de mineração que invadiram rios e o mar da região.
Entre os achados alarmantes estão larvas de peixes com deformidades, ovos inviáveis e a presença de contaminantes em níveis que excedem os limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Embora haja sinais de melhoria nas condições ambientais ao longo dos anos, uma preocupante questão permanece: a segurança do pescado para o consumo humano.
O Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) da Ufes, que acompanha a qualidade ambiental e a biodiversidade aquática, não inclui em seu escopo avaliações sobre os riscos à saúde de quem consome peixes da região. A universidade enfatizou que essa lacuna é significativa, especialmente à luz de uma recente portaria que restabeleceu a pesca em trechos próximos à foz do Rio Doce, área que permaneceu interditada por mais de uma década.
Os dados coletados revelam a presença de peixes marinhos com deformidades físicas. Análises de três espécimes — duas corvinas e um linguado — mostraram concentrações de chumbo acima do permitido em um dos linguados. Além disso, alterações externas foram observadas, como lesões na pele e massas nodulares. Contudo, a Ufes não investigou as causas dessas anomalias, deixando em aberto a questão sobre a saúde dos ecossistemas aquáticos.
Os relatos de pescadores na região corroboram os dados da universidade. Eles têm encontrado peixes e outros animais marinhos com aparência doente e deformada, levantando preocupações sobre a qualidade do pescado e sua adequação para o consumo. Um pescador, ao mostrar um peixe linguado com tumores, expressou sua indignação: “Como é que o pescador vai comer um peixe desse?”
Apesar da redução gradual dos índices de contaminação, a Ufes alerta que as condições ambientais ainda são instáveis, especialmente durante períodos de chuvas intensas. Isso pode levar à ressuspensão de sedimentos contaminados e à disponibilização de poluentes na água. A situação é complexa, com a necessidade de monitoramento contínuo para avaliar de forma mais precisa a recuperação dos ecossistemas afetados.
Além das análises de contaminantes, o monitoramento também detectou deformidades em larvas e uma elevada proporção de ovos inviáveis, ressaltando a fragilidade da vida aquática na região. Os pesquisadores observaram mudanças na composição das comunidades de peixes, com um aumento de espécies introduzidas e uma diminuição das nativas, o que indica um ecossistema em desequilíbrio.
É importante ressaltar que a metodologia do PMBA não foca especificamente em peixes de tamanho comercial, o que limita a compreensão dos riscos à saúde humana. A Ufes anunciou planos de incluir peixes de interesse comercial nas próximas fases do monitoramento, mas a responsabilidade sobre as orientações de consumo ainda recai sobre as autoridades competentes.
A Anvisa, em sua avaliação, considerou que as amostras de pescado marinho estavam dentro dos limites seguros, mas identificou contaminação em peixes de água doce, recomendando que amostras que ultrapassaram os limites máximos não fossem consumidas. A falta de transparência e a ausência de respostas de órgãos competentes sobre a saúde da população afetada e o retorno da pesca na região continuam a levantar preocupações, evidenciando a necessidade de um monitoramento mais rigoroso e de ações efetivas para garantir a segurança alimentar e a recuperação dos ecossistemas.



